Do México para o Brasil: sinais de transformação no mercado de escolas de natação
Observações e reflexões a partir de uma nova passagem pelo México.
Rafaele Madormo
Estar no México, ao lado da Sandra Rossi Madormo, para participar do 42º Congresso Nelson Vargas de Natação e Fitness foi também uma oportunidade de olhar com mais atenção para um mercado de escolas de natação que, em muitos aspectos, guarda semelhanças com o brasileiro.
O congresso reuniu cerca de 700 participantes. Um número que, por si só, já chama a atenção. Mas outro dado talvez diga ainda mais sobre a dimensão da Nelson Vargas: aproximadamente 500 participantes eram professores da própria empresa.
A Nelson Vargas tem cerca de 48 anos de história e se transformou em uma potência no mercado mexicano. Fundada por Nelson Vargas, uma verdadeira lenda do esporte no México, a empresa manteve durante décadas uma característica eminentemente familiar, comandada pelo fundador e seus dois filhos.
No início deste ano, porém, deu um passo importante em direção à profissionalização de sua gestão ao trazer da Espanha Pere Solanellas, um conhecido consultor do mercado esportivo, para assumir a posição de CEO. É um movimento que me chamou particularmente a atenção. Muitas empresas do nosso setor nascem da competência técnica, da visão e do trabalho de seus fundadores e crescem mantendo uma gestão familiar. Em determinado momento, porém, o próprio crescimento pode exigir uma nova estrutura de gestão.
Durante nossa passagem pela Cidade do México, tivemos também a oportunidade de conhecer a 18ª unidade da empresa, a Nelson Vargas Family Fitness, em Polanco, que iniciou suas atividades no dia 24 de agosto.
O projeto, da arquiteta brasileira Patricia Totaro, é um colosso, com aproximadamente 11 mil metros quadrados. Mais do que o tamanho, impressiona perceber o investimento realizado e a dimensão que uma empresa originalmente ligada à natação conseguiu alcançar ao longo de quase cinco décadas.
Conhecer uma operação dessa escala é interessante porque nos faz olhar para além da piscina. Estrutura, gestão, formação das equipes, relacionamento com o cliente, diversificação dos serviços e capacidade de investimento passam a fazer parte de uma mesma equação.
Também no bairro de Polanco visitamos uma unidade inaugurada há 4 meses, do Club Cañada, empresa que possui sete unidades. Ali encontramos uma operação exclusivamente voltada para a natação, com cerca de 1.500 alunos, instalada dentro de um centro comercial.
Uma comparação visual ajuda a entender sua dimensão: a escola ocupa um espaço aproximadamente equivalente ao de uma unidade da Smart Fit localizada ao lado.

O que mais me chamou a atenção, porém, não foi somente a estrutura física. O Club Cañada apresenta um conceito moderno de atendimento, com forte utilização de tecnologia e terminais nos quais o próprio cliente pode comprar aulas e produtos.
Isso não chega a ser novidade quando olhamos para mercados mais desenvolvidos de escolas de natação, como Estados Unidos e Austrália. O que considero interessante é começar a encontrar essas soluções incorporadas às operações de países como o México, que possuem uma realidade econômica e empresarial mais próxima da nossa.
É um movimento que vale a pena acompanhar. A tecnologia já está presente nas escolas de natação brasileiras, naturalmente, mas acredito que veremos nos próximos anos uma utilização muito mais efetiva na jornada do cliente, nas vendas, no atendimento e na própria operação das escolas.
Esta, aliás, não foi nossa primeira oportunidade de observar o mercado mexicano.
No ano passado estivemos em Boca del Río, no estado de Veracruz, participando de outro evento, de características mais modestas, mas de muito valor acadêmico. Aquela viagem nos colocou em contato com uma realidade diferente, formada por escolas menores e mais tradicionais. Desta vez, na Cidade do México, tivemos a oportunidade de conhecer operações de outra dimensão.
Juntar essas duas experiências nos permite ter uma visão mais apurada do mercado mexicano. Não existe uma única realidade. Ao lado de grandes empresas, estruturas sofisticadas e movimentos de profissionalização, continuam existindo escolas menores, tradicionais e muito próximas daquilo que encontramos em várias regiões do Brasil.
Sandra participou da programação do congresso como palestrante, apresentando três temas: segurança aquática, natação para crianças atípicas e a influência dos sistemas vestibular e límbico na aprendizagem da natação. Eu também participei de toda a programação do evento, acompanhando as palestras e aproveitando os intervalos e os momentos de convivência para conversar com profissionais e empresários do setor. As visitas às unidades da Nelson Vargas e do Club Cañada haviam sido realizadas nos dias anteriores ao congresso e complementaram muito bem aquilo que pudemos observar e discutir durante o evento.
Além de participar efetivamente do congresso, minha ida ao México tinha também outros objetivos: ampliar meu entendimento sobre o mercado mexicano, conversar com seus protagonistas e estabelecer novos contatos pensando no próximo INATI Inspira, que acontecerá de 1 a 4 de abril de 2027, especialmente no S4 – Swim School Strategic Summit. Estar em um evento com cerca de 700 profissionais e, ao mesmo tempo, conhecer algumas das principais operações do país tornou essa combinação particularmente interessante.
E talvez esse tenha sido o principal aprendizado da viagem.
O mercado mexicano de escolas de natação tem muitas similaridades com o brasileiro. Existem empresas familiares que cresceram, operações com diferentes tamanhos e propostas, preocupação com formação profissional e um setor que começa a incorporar novas tecnologias e formas de relacionamento com seus clientes.
Por isso, observar o que está acontecendo por lá não é apenas uma curiosidade sobre outro país. Pode ser uma referência interessante para entendermos movimentos que começamos a vivenciar também no Brasil.
Não significa que os mesmos modelos serão reproduzidos aqui. Cada mercado tem suas características, sua cultura e suas particularidades. Mas olhar para fora ajuda a fazer perguntas sobre o que estamos fazendo dentro.
Como serão as escolas de natação brasileiras daqui a alguns anos? Que tamanho algumas delas poderão alcançar? Qual será o papel da tecnologia? Como mudarão as expectativas dos clientes? E que competências serão necessárias para quem estiver à frente dessas empresas?
Voltei do México com algumas confirmações, muitos contatos e mais algumas perguntas.
Para quem trabalha com gestão, talvez isso seja uma das coisas mais interessantes de viajar e conhecer outros mercados: observar o que está acontecendo em outros lugares nos ajuda a enxergar melhor movimentos que também estão acontecendo por aqui, muitas vezes de formas e em ritmos diferentes.



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