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Movimento TRAUMA FREE - Respeito a criança no ambiente aquático



Em 2018, foi lançado no 1° WIAC - World Infant Aquatic Conference, organizado pela ISSSA - International Swim Schools Association - o Movimento Trauma Free, que combate métodos forçados de sobrevivência aquática. Os métodos utilizam, em sessões individuais, instrutor/criança, experiências angustiantes e potencialmente prejudiciais para a criança. O posicionamento da ISSA surgiu da iniciativa da Sra. Janine Ramsey, consultora, educadora aquática internacional e ativista contra métodos de sobrevivência que usam a força e traumatizam. O trabalho da Sra. Ramsey está baseado nos estudos da terapeuta especializada em traumas da infância, Sra. Frances S. Waters. A Sra. Waters esteve presente no evento e demonstrou os potenciais malefícios que podem ser causados às crianças no momento das aulas e, ainda, poderão fazer surgir posteriormente distúrbios comportamentais na adolescência ou mesmo na vida adulta.




Auditório do 1° WIAC - World Infant Aquatic Conference - 2018


Muitas crianças expostas a métodos forçados são resilientes e passam pela situação e aprendem o desejado, mas a que custo? Outras não vão conseguir e poderão desenvolver fobias e até traumas. A pergunta que fazemos: a criança tem que ser responsável por sua segurança na água? E a resposta: não, essa é uma obrigação do adulto. Essa exigência seria similar a obrigar uma criança que lesse e escrevesse com meses de idade.


Vale a pena expor a criança a situação de risco, mesmo que controlado (mas que ela não compreende), desencadeando sofrimento e inundando seu corpo com cortisol que a desequilibra física e emocionalmente e, potencialmente, com consequências a curto, médio e longo prazos?


Algumas pessoas se apegam ao fato que muitas crianças aprendem dessa forma, evoluem e gostam da água, mas vale indagar: numa sociedade onde cada vez mais buscamos defender os direitos das pessoas, de todas as idades e nas diferentes situações, será que as crianças devem ser expostas a situações extremas para aprender, quando há maneiras mais gentis, que as respeitam, além de se preocuparem com seu desenvolvimento global?


Essa é uma questão com vários ângulos o que a torna complexa para pesquisas científicas, pois, mesmo que estudos mostrem que as crianças que passam por esses métodos aprenderam a nadar e se relacionam bem com a água, há possibilidade, no longo prazo, de aparecerem problemas emocionais, como relatado pela Sra. Waters, que vê similaridades entre trauma de abusos cometidos com crianças em situações cotidianas e os sofridos com as crianças nas sessões de métodos forçados, e que acabam desencadeando, anos depois, distúrbios emocionais como bulimia, anorexia, entre outros.



Rafaele, Janine Ramsey e Sandra Madormo


Outro possível ponto de avaliação, mas com difícil mensuração, é estabelecer o número de crianças (e seus pais) que não conseguem suportar o processo no método forçado, e mais; quantas delas acabam com sequelas emocionais e aversão a água, gerando crianças que precisam de um trabalho muito específico para que possam ter uma boa relação com a piscina. Nos EUA, país onde o método forçado tem mais adeptos, há locais que oferecem aulas específicas para fazer este tipo de trabalho de reinserção da criança no ambiente aquático, depois de passarem por um método forçado. Essa é uma sinalização de que há um volume significativo de crianças que criaram resistência e até ficaram traumatizadas na relação com água após terem passado por essa experiência.


Existem muitos métodos que aplicam técnicas para sobrevivência, ou "autossalvamento", com maior ou menor atenção aos sentimentos da criança, porém, a maioria deles, se baseia no processo intensivo, ou seja, aulas individuais, cinco vezes por semana, de 10 a 15 minutos, por quatro a seis semanas, já que as aulas, em geral, são exaustivas para as crianças, física e emocionalmente. Segundo os profissionais que aplicam estes métodos, os resultados são muito mais rápidos do que os métodos não forçados, ditos “tradicionais”.




Rafaele, Frances Waters e Sandra Madormo


Sempre acreditamos ser possível que os métodos não forçados “tradicionais”, trabalhando individualmente, cinco vezes por semana, por até seis semanas, somente habilidades de sobrevivência, cheguem a resultados parecidos aos métodos forçados. E essa probabilidade vem se mostrando realista.


O resultado preliminar de um estudo apresentado por uma comissão da ASSA - Australian Swim Schools Association, no 2°WIAC realizado em janeiro de 2020, em Cingapura, onde a premissa foi utilizar uma carga parecida de horas de atividade com o método não forçado visando a sobrevivência do aluno, mostrou que ela é válida.


Na primeira fase, a avaliação dos ganhos de habilidades, em termos de sobrevivência das crianças, é parecida aos métodos forçados. Os estudos continuam e, caso isso seja definitivamente confirmado, teremos indícios fortes que a frequência concentrada é que gera o resultado para ambos os métodos, forçado e não forçado, portanto, a afirmação que se consegue resultados mais rápidos pela abordagem forçada, não se sustenta, desmistificando um grande argumento de venda para a utilização dessas técnicas.


No Brasil, lançamos o Movimento Trauma Free durante nossa apresentação no 11º CBNI - Congresso Brasileiro de Natação Infantil, para uma plateia com mais de 600 professores de natação.


Felizmente, a nossa realidade é de observação a distância para o problema, pois estes métodos forçados tem pouca presença por aqui, mas, devido as redes sociais que democratizaram a informação, para o bem e para o mal, as "timelines" sempre mostram crianças em situações de risco e que se "livraram do perigo" devido a terem sido treinadas por um desses programas.


Isso gera curiosidade e, muitas vezes, admiração de professores, desinformados do processo, que opinam, sem conhecer o passo a passo, baseado apenas no que veem como resultado. Também há muitos pais que assistem os mesmos vídeos e buscam informações com os profissionais da água, encantados com o que viram. Assim é importante estar bem embasado para ter sua própria opinião e informar adequadamente.



Palestra de Lançamento Movimento Trauma Free no Brasil - 11º CBNI - 2019


O Movimento Trauma Free tem como interesse buscar evidências científicas para mostrar caminhos e oferecer a melhor relação possível da criança com a água, dando a ela momentos de prazer e possibilidades de desenvolvimento emocional, cognitivo e fisiológico, de forma segura, durante e depois das aulas. Não há sentido, em nome de uma possibilidade futura de acidente, “acelerar” um caminho, por vias tortuosas, e expor a criança a situações de risco, absolutamente desnecessárias, em nome de uma pretensa superioridade nos resultados para a “segurança da criança”.


Cabe ressaltar que a segurança aquática é feita por camadas de proteção. Ou seja, é um composto de ações que encadeadas aumentam a segurança, mas não eliminam o risco. Portanto, saber nadar ou ter condição de realizar o “autossalvamento” é importante, mas, não resolve sozinho. No caso de criança, a ação mais importante é a supervisão atenta e constante de um adulto, e, especificamente para bebê, ainda há um complicador, pois ele pode se afogar, além da piscina - que deve ter restrição de acesso, preferencialmente, com cerca e portão auto travante -, em banheiras, baldes e qualquer recipiente que contenha alguns palmos de água, onde as habilidades de autossalvamento não serão úteis.


Por fim, não podemos transferir a responsabilidade de segurança da criança para ela mesma. Essa é a tarefa do adulto, o que por si só demonstra que expor a criança a qualquer método que gere desconforto e até a possibilidade de trauma, não deve ser utilizado, mesmo que saibamos que a intenção de pais e instrutores, na maioria dos casos, é oferecer proteção para a criança, buscando o melhor para ela. O medo, aliado a uma desejada solução rápida e segura, cria um ambiente propício para adoção de métodos potencialmente danosos para a saúde física e mental das crianças, por isso precisamos informar a sociedade sobre todas as possíveis implicações que estão atreladas a essa decisão.


Então, se concorda com os argumentos expostos, faça parte do movimento!


Sandra Rossi Madormo e Rafaele Madormo



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